BGS 2026: a feira que trocou os games por panelas e praças de alimentação

Com menos grandes estandes de fabricantes e publishers, presença expressiva de comércio e críticas à estrutura, a Brasil Game Show de 2026 enfrenta questionamentos sobre sua identidade e seu futuro.

A frase “a BGS acabou” acompanha a Brasil Game Show há anos, geralmente como reação às ausências de grandes empresas ou às expectativas frustradas de parte da comunidade. Na edição de 2026, realizada no Distrito Anhembi, em São Paulo, a crítica ganhou novos argumentos. A menor presença de grandes estandes de fabricantes e publishers, a distribuição dos espaços e a quantidade de atrações comerciais levantaram uma questão incômoda: a maior feira gamer do Brasil ainda consegue entregar a experiência que a tornou relevante?

A BGS construiu sua reputação aproximando os jogadores dos videogames. Era a oportunidade de experimentar lançamentos, conhecer novidades de hardware, acompanhar campeonatos e encontrar pessoas que compartilhavam a mesma paixão. O valor da feira nunca dependeu exclusivamente de anúncios globais, mas da capacidade de reunir diferentes partes da indústria em um único lugar.

Em 2026, porém, a percepção durante a visita foi outra. Entre áreas comerciais, espaços de alimentação e corredores que pareciam menos movimentados do que o esperado, ficou a impressão de que os jogos perderam protagonismo. E poucas imagens resumem melhor essa sensação do que encontrar produtos como panelas em um evento cujo principal argumento deveria ser a paixão pelos videogames.

A ausência de grandes estandes mudou a experiência

A edição de 2026 teve uma diferença perceptível em relação às feiras que consolidaram a reputação da BGS: a ausência de grandes estruturas próprias de algumas marcas que historicamente atraíam visitantes.

PlayStation e Xbox não apresentaram estandes próprios de grande porte comparáveis aos espaços vistos em edições anteriores. Isso não significa que todas essas marcas tenham desaparecido completamente do evento. Houve presença de produtos oficiais e atividades relacionadas a algumas delas, mas a ausência de grandes áreas de demonstração alterou a maneira como o público pôde circular e experimentar os jogos.

A diferença é importante. Um estande de grande porte costuma reunir demonstrações, ativações, campeonatos e experiências que mantêm o visitante ocupado por mais tempo. Quando essas estruturas deixam de participar, a feira precisa oferecer outras atrações capazes de preencher o espaço físico e a expectativa do público.

A BGS 2026 não ficou sem jogos ou empresas relevantes. Nintendo, SEGA e Square Enix estiveram entre os destaques, enquanto a Devolver Digital também apresentou seu catálogo de títulos. Ainda assim, a questão permanece: a variedade e a escala dessas atrações foram suficientes para compensar a ausência de alguns dos grandes nomes que ajudaram a definir edições anteriores?

Quando a feira começa a parecer um shopping

Outro ponto que chamou a atenção durante a visita foi a presença de espaços comerciais e de alimentação em meio aos pavilhões.

Praças de alimentação são necessárias em eventos que recebem milhares de pessoas durante várias horas. Lojas e produtos relacionados à cultura pop também fazem parte da experiência de muitas feiras. O problema surge quando essas atividades parecem ocupar o espaço que o visitante esperava encontrar dedicado aos jogos.

Na BGS 2026, a impressão foi de que a oferta comercial ganhou protagonismo em determinados trechos, enquanto a quantidade de experiências jogáveis não correspondia à expectativa criada pelo tamanho do evento.

Mapa BGS 2026

Um exemplo particularmente curioso foi a presença de um estande que comercializava kits de panelas de ferro fundido associados ao chef Érick Jacquin, com divulgação de condições de parcelamento que chegavam a R$ 1.800, conforme observado durante a visita.

A cena é curiosa, mas também ilustra uma questão legítima: até que ponto a expansão do comércio ajuda a financiar e diversificar uma feira gamer, e em que momento ela passa a descaracterizar o evento?

Sem uma medição comparativa das plantas oficiais, não é possível afirmar que a alimentação e o comércio ocuparam uma porcentagem específica da área total ou que tomaram exatamente o espaço antes destinado aos jogos. Ainda assim, a percepção de desequilíbrio merece atenção, porque a identidade de uma feira depende tanto do que ela oferece quanto da maneira como distribui suas atrações.

Por que as grandes empresas estão se afastando?

A redução da presença de grandes publishers não pode ser explicada por um único motivo sem ouvir as empresas e a organização. Participar de uma feira internacional envolve custos de montagem, equipamentos, equipe, transporte, marketing e desenvolvimento de experiências específicas para o público.

Ao mesmo tempo, as empresas têm outras formas de divulgar seus produtos, como transmissões próprias, campanhas digitais, demonstrações distribuídas por plataformas online e parcerias com criadores de conteúdo.

Nesse cenário, a participação presencial precisa oferecer um retorno que justifique o investimento. Uma marca pode considerar mais eficiente direcionar recursos para campanhas digitais ou eventos próprios, enquanto outra pode entender que o contato direto com o público continua sendo estratégico.

A organização da BGS precisa levar essa realidade em conta. Preços de exposição, infraestrutura, condições de montagem, divulgação e oportunidades comerciais influenciam a decisão dos expositores. Entretanto, afirmar que os valores cobrados são o principal motivo das ausências exige depoimentos, documentos ou dados que sustentem essa conclusão.

O que a edição de 2026 demonstra é que a feira precisa tornar sua proposta mais competitiva. Manter uma estrutura ampla não basta se parte das empresas que ajudaram a consolidar sua reputação deixa de enxergar valor em participar.

A relação com a imprensa e os criadores também importa

A imprensa e os criadores de conteúdo ajudam a ampliar o alcance de um evento para além dos visitantes presentes nos pavilhões. Notícias, vídeos, entrevistas e demonstrações permitem que pessoas que não compraram ingresso acompanhem as novidades e conheçam os jogos apresentados.

Por isso, credenciamento, infraestrutura de trabalho e condições de cobertura fazem parte da experiência de uma feira profissional.

Relatos de dificuldades para obter credenciais ou trabalhar durante o evento merecem ser examinados, especialmente quando envolvem veículos que acompanham a indústria há anos. No entanto, negativas de credenciamento precisam ser analisadas caso a caso, considerando os critérios divulgados pela organização e a justificativa apresentada.

O mesmo vale para a estrutura destinada à imprensa. Uma sala de trabalho adequada, acesso à internet e condições para realizar entrevistas e produzir conteúdo podem facilitar a cobertura e ampliar a exposição dos expositores.

A BGS tem interesse em manter uma relação produtiva com esses profissionais. Melhorar as condições de trabalho não é apenas uma cortesia: pode contribuir para que os jogos apresentados alcancem uma audiência muito maior do que a presente no evento.

Os jogos independentes poderiam ocupar um espaço maior

A redução de grandes estandes também abre uma oportunidade para os desenvolvedores independentes.

O Brasil possui estúdios com propostas variadas, desde jogos de ação e aventura até experiências experimentais e produções com identidade cultural própria. Uma feira de grande porte pode funcionar como vitrine para esses projetos, aproximando os criadores do público e criando oportunidades de divulgação e negócios.

Na edição de 2026, a área independente pareceu limitada diante do potencial desse segmento. Essa é uma avaliação da experiência presencial, não uma medição oficial da redução de espaço em relação aos anos anteriores.

Ainda assim, a oportunidade é evidente. Em vez de tratar os jogos independentes como complemento, a BGS poderia transformá-los em parte central de sua proposta, com mais estações de teste, apresentações de desenvolvedores, encontros com criadores e iniciativas que facilitem a participação de estúdios menores.

Para isso funcionar, não basta reservar um espaço no mapa. A organização precisa garantir visibilidade, localização adequada e condições financeiras que permitam aos estúdios participar sem comprometer recursos essenciais para o desenvolvimento de seus jogos.

Se algumas das maiores empresas do mercado não consideram a feira prioritária, valorizar a produção independente pode ajudar a construir uma identidade própria e oferecer atrações que o público não encontraria em uma campanha digital convencional.

Falhas de organização também afetam a experiência

A qualidade de uma feira não depende apenas dos jogos apresentados. Entrada, circulação, sinalização, filas e distribuição do público são elementos fundamentais para que milhares de visitantes consigam aproveitar o evento.

Relatos recolhidos durante a BGS 2026 apontaram problemas no controle de acesso e na liberação de grupos de visitantes. Segundo essas descrições, pessoas teriam ficado concentradas em áreas de triagem antes de serem liberadas, provocando correria em direção aos corredores e às atrações.

Se confirmados, episódios desse tipo merecem esclarecimento da organização. A concentração de pessoas em espaços limitados e a liberação repentina de grandes grupos podem gerar riscos que precisam ser prevenidos com planejamento e controle de fluxo.

É importante, contudo, distinguir os relatos de uma conclusão sobre a gravidade da ocorrência. Sem dados sobre o número de pessoas envolvidas, eventuais feridos e as medidas tomadas pela organização, não é possível afirmar que houve esmagamento ou que todos os visitantes estiveram sob risco iminente.

A BGS deveria esclarecer como funcionou o controle de entrada, se houve incidentes registrados e quais medidas podem ser adotadas para evitar situações semelhantes em futuras edições. A segurança do público precisa ser tratada como parte central da organização, não como um detalhe operacional.

A comparação com outros eventos aumenta a pressão

A BGS também disputa a atenção do público com eventos que trabalham a cultura pop, os jogos ou comunidades específicas de maneiras diferentes.

A CCXP construiu sua identidade em torno de grandes ativações, encontros com artistas e experiências ligadas a filmes, séries, quadrinhos e outras áreas do entretenimento. A gamescom latam busca aproximar a indústria de jogos do público e do mercado latino-americano. Já eventos de nicho, como a Retrocon, concentram sua proposta em comunidades e interesses específicos.

Essas iniciativas não são equivalentes à BGS em escala, público ou objetivo. Ainda assim, oferecem referências úteis para avaliar o que faz uma feira valer a visita.

O público não procura apenas um pavilhão grande. Quer atrações relevantes, oportunidades de experimentar jogos, contato com comunidades e atividades que justifiquem o preço do ingresso e o tempo gasto no deslocamento.

Se eventos menores conseguem oferecer experiências mais focadas em determinados segmentos, a BGS precisa explicar por que sua escala maior representa uma vantagem concreta para quem visita a feira.

O que a BGS precisa mudar para recuperar sua identidade?

A edição de 2026 não prova que a Brasil Game Show esteja perto de acabar. Ela, porém, expõe desafios que a organização não deveria ignorar.

O primeiro é repensar a relação entre tamanho e conteúdo. Uma feira extensa não é necessariamente melhor se parte dos espaços não oferece atrações capazes de justificar a visita. Concentrar recursos em áreas mais relevantes pode ser mais eficiente do que tentar reproduzir uma estrutura que depende da presença de grandes empresas.

O segundo é tornar a participação mais atraente para expositores de diferentes portes. Isso envolve avaliar custos, infraestrutura, divulgação e formatos de exposição que permitam tanto às grandes publishers quanto aos estúdios independentes encontrar valor no evento.

O terceiro é recuperar o protagonismo dos jogos. Alimentação, comércio e atividades paralelas têm seu lugar, mas precisam complementar a experiência gamer, não competir com ela pela atenção do público.

Por fim, é necessário ouvir visitantes, desenvolvedores, imprensa e empresas. Uma avaliação transparente das críticas recebidas pode ajudar a identificar problemas concretos e definir prioridades para a próxima edição.

A BGS construiu sua reputação aproximando os brasileiros dos videogames. Essa conexão continua sendo seu maior ativo. Recuperá-la não exige necessariamente ampliar a feira ou reproduzir os estandes do passado, mas garantir que o espaço, o investimento e a programação estejam alinhados com aquilo que o público espera encontrar.

A provocação das panelas pode render manchetes e discussões, mas o problema real é mais profundo: uma feira gamer precisa fazer dos jogos seu principal motivo para existir. Se a BGS conseguir transformar essa crítica em mudanças concretas, a edição de 2026 poderá ser lembrada não apenas como uma decepção, mas como o momento em que a organização precisou rever suas prioridades.

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